Economia Circular: o caminho para o desenvolvimento sustentável

O modelo económico circular responde a uma visão de desenvolvimento sustentável: conseguir que em 2050 mais de nove mil milhões de pessoas vivam dignamente dentro dos limites ecológicos do planeta[1]. Em Portugal, por exemplo, os atuais padrões de utilização de recursos correspondem ao consumo de 2.5 planetas[2] o que é insustentável.

Na União Europeia, onde a dependência de combustíveis fósseis atinge os 63%[3], apenas 12% da procura de materiais é satisfeita com a incorporação  de materiais reciclados[4]. É neste contexto que a transformação para uma Economia Circular se torna central para a política europeia. Reduz a dependência do exterior, valoriza os recursos existentes dentro das suas fronteiras, cria emprego e diminui significativamente a sua pegada ecológica.

Na sua essência, o caminho está na definição de novas políticas, na melhoria do conhecimento, na promoção da inovação e num investimento orientado. O desafio de transformar um modelo económico linear, hoje assente na extração-transformação-uso-descarte, num novo paradigma onde se elimina a extração e o desperdício, passando apenas àtransformação-uso-transformação, é muito exigente e complexo.

As PME serão centrais na transformação do modelo económico atual. Dos inúmeros desafios existentes, é necessário repensar materiais, redesenhar produtos, prolongar o seu tempo de vida útil ou mesmo desmaterializar, encontrar soluções de reutilização e por último de reciclagem no fim de vida…. Para tal, é essencial criar mecanismos, que mapeiem as lacunas existentes, e incentivos ao desenvolvimento de empresas que contribuam para as colmatar. Já existem standards e ferramentas que ajudam as organizações a avaliar o impacte ambiental do seu produto na cadeia de valor e está criado um contexto favorável para esta transformação, mas as empresas nem sempre têm recursos nem competências para traduzir esta informação num sistema simples de gestão interna da sua atividade.

O desenho de um plano de avaliação e classificação do “nível de circularidade” de produtos, serviços ou processos, capaz de digerir a complexidade associada a esta temática, permitirá conhecer de forma eficaz o contributo de cada empresa para este novo modelo económico. A escassez de recursos é uma realidade e trabalhar para uma economia circular é também uma medida de gestão de risco.

Existem já ensaios vários sobre a incorporação deste conceito pelas empresas sendo ilustrativo o trabalho em curso no World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), onde se definiram cinco princípios chave para avaliar a circularidade de um negócio[5]: Inputs sustentáveis (maximização do uso de materiais renováveis e reciclados e uso de energias renováveis); Extensão do ciclo de vida do produto (inovação e desenho modular, bem como manutenção recorrente); Partilha de informações (gestão para reduzir a produção de novos bens); “Product as a Service” (com consequente desmaterialização); Recuperação de recursos (redução dos resíduos por reutilização, regeneração e reciclagem).

A título de exemplo, seguindo o primeiro princípio, a EDP tem tido um papel determinante na promoção deste modelo através da sua estratégia de descarbonização, com 73% de potência instalada renovável e com uma atividade comercial focada na promoção de serviços de descarbonização e de eficiência energética. Nos últimos 7 anos, o seu programa Save-to-Compete permitiu uma poupança de 27M€ e 270GWh de eletricidade nos seus clientes, exemplo de um serviço contribuinte líquido para a circularidade de um negócio.

A Economia Circular chegou para ficar. Não é uma moda, mas um imperativo de mudança ao qual todos temos de aderir para benefício próprio e das gerações futuras.

[1] Adaptação da Visão 2050 do WBCSD

[2] http://data.footprintnetwork.org/#/countryTrends?cn=174&type=earth

[3] Euroestat

[4] https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:52019DC0190&from=EN

[5] http://docs.wbcsd.org/2017/06/CEO_Guide_to_CE.pdf