Exits de Sucesso

 

João Pereira

Investment Director, área de investimento de Digital.

Um exit de sucesso

Um exit bem sucedido é uma fonte de regozijo para empreendedores, investidores, equipa e ecossistema. Celebra-se porque constitui um marco: os envolvidos assumiram riscos, aplicaram o seu conhecimento e esforço, dedicaram-se, e o valor potencial criado é reconhecido financeiramente por um comprador disposto a remunerar de forma excecional os vendedores, ao mesmo tempo que oferece uma nova fase de desenvolvimento para a empresa.

Arrancar um novo negócio resulta de uma multiplicação de desafios. A transformação da tecnologia em produtos, o desenho da estratégia de IP, a angariação de utilizadores e clientes para a proposta de valor idealizada, a construção de um plano, a sedução e angariação de recursos indispensáveis às várias etapas (entre outros, a equipa, os parceiros, os mentores e os investidores), a criação de uma cultura empresarial ganhadora, a comunicação interna e externa com todos os stakeholders relevantes, a ignição e o crescimento acelerado, a abordagem precoce de mercados globais, a preparação para ambientes negociais, o gerir as operações, e o muito mais que o arranque de uma empresa implica. E tudo isto mantendo entusiasmo e compromisso, num ambiente fortemente competitivo e de elevado risco. Fica assim óbvio por que todos queremos celebrar o exit, momento único de felicidade, em que os parabéns são merecidos.

Abordar o exit de forma estratégica

Abordar o exit de forma estratégica implica incorporar nas discussões periódicas entre fundadores e investidores quais são as preferências de saída, quais os potenciais compradores (não necessariamente as empresas em concreto, mas os verticais onde o potencial de valor seja percecionado), qual o melhor momento para espoletar o processo de ida ao mercado, e o que deve a empresa alcançar como metas do seu desenvolvimento para maximizar o seu potencial num eventual exit. Como sabemos, a preparação favorece o reconhecimento e a criação de oportunidades, e a tomada de decisão sobre elas.

A porção mais significativa dos exits de sucesso de startups é o resultado de aquisições por outras empresas – são as práticas internacionais e a experiência da Portugal Ventures que o mostram. Um exit de sucesso tanto resulta de se vender ou se ser comprado: a todo o momento há empresas que procuram, ou são aliciadas a considerar, soluções inovadoras, novos mercados, e o acesso a conhecimento e talento. Daqui decorre que a melhor abordagem é sempre planear para vender, provocando potenciais compradores ou, no caso de uma oferta não solicitada, rapidamente avaliar a generosidade da proposta, concebendo alternativas, anuindo ou rejeitando.

Porque há muito valor na preparação do processo de venda de uma empresa, vale a pena sistematizar aqui algumas das indicações recorrentes que a experiência demonstra serem melhores práticas:

  • Comunicar. A comunicação empresarial vai para além da marca e da aquisição de clientes e utilizadores. Conteúdos, presença em fóruns e eventos, liderar opiniões, constar de fontes de informação relevantes, participar e aprofundar redes de contactos, em suma, prover a criação de imagem e presença regular que permite a consulta e acompanhamento do percurso da empresa, tendo presente os potenciais alvos e verticais deliberados. Não é de todo uma contradição recomendar planear-se para a serendipidade, provocando o acaso com a presença e a exposição.
  • Procurar apoio. Como nas demais dimensões da gestão da startup, há valor em se adicionar ao conhecimento e disponibilidade próprios dos fundadores o apoio externo indispensável a um processo de venda bem sucedido (na sua concretização e no valor retido). Isto significa obter suporte ativo dos investidores, dos mentores e de profissionais relevantes em áreas como a identificação de alvos, a preparação de conteúdos, a geração de propostas de valor apropriadas a cada comprador potencial, a intermediação, os aspetos jurídicos e contratuais e a valorização do negócio. Um exit é um processo de venda sofisticado.
  • Estar preparado. A transação apenas ocorrerá se os resultados de Due Diligence (DD) forem satisfatórios e obtidos em tempo oportuno, confirmando a perceção de valor excecional que suporta o preço oferecido. Há que manter em ordem as prestações de contas, os registos, os contratos e compromissos, e também a evidência dos ativos e sua proteção legal; note-se, contudo, que a DD não é apenas legal, fiscal ou administrativa: sempre será dirigida aos processos, à tecnologia e às pessoas, mais uma vez obrigando a que haja um intento, por exemplo mantendo em revisão periódica um Data Room.
  • Liderar. No processo de venda da startup ficam evidentes os objetivos próprios de todos, fundadores, investidores e demais envolvidos. Apesar de um objetivo comum, os envolvidos avaliam as oportunidades distintamente, os seus tempos de decisão não são iguais, e as suas posturas na discussão evidenciam os seus interesses particulares e a sua experiência, potencialmente divergentes entre si. Num exit de sucesso os fundadores assumem claramente a liderança, influenciando, promovendo consensos, marcando o ritmo, procurando apoio mas não deixando para terceiros a condução do processo.
  • Esboçar o pós-exit. As empresas são compradas com a sua equipa, contratando-se não só o preço e as condições da transação, mas também o papel futuro daquela. Sempre haverá acordos com os fundadores quanto a prazo de compromisso com a empresa após a compra, de mandato ou contrato de trabalho, de remunerações, de integração ou autonomização do negócio, de graus de liberdade de gestão. Há todo o interesse em antecipar esta discussão em sede da equipa, porque este alinhamento sempre determinará quais os alvos, as ofertas e os compromissos a aceitar, determinando o sucesso do exit.