O ecossistema empreendedor nacional é machista? “Sim, é machista. Mas este assunto não me tira o sono de noite...”

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O Dia da Mulher surgiu no final do século XIX, início do século XX nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas femininas por melhores condições de vida e trabalho, e pelo direito de voto. Durante séculos, o papel da mulher centrou-se sobretudo na função de mãe, mulher e dona de casa. Ao homem estava destinado um trabalho remunerado no exterior do núcleo familiar. Neste dia, a Portugal Ventures dá a voz a alguns empreendedores do seu portfólio, homens e mulheres, com uma missão: colocar o ecossistema a pensar sobre a evolução do papel da mulher na sociedade e no ecossistema empreendedor em particular.

“Ainda estamos distantes de uma completa igualdade de géneros, mas devemos encarar os factos com uma oportunidade”, começa Daniela Seixas, CEO da Tonic App. A evolução do papel da mulher na sociedade não é suficiente, diz Tiago Morgado, CEO da Egg Electronics: “É necessário que esta evolução seja mais rápida. Está a melhorar e cada vez mais há mulheres que ocupam lugares de liderança com mais poder e mais influência, mas precisamos de mais, muito mais e de melhorar o ecossistema, público e privado. Todos vamos beneficiar disso”. A mesma opinião partilha João Ribeiro, CEO da PeekMed, quando afirma que “estamos a fazer o caminho, mas ainda há muito a melhorar”.

Quando questionados se o ecossistema empreendedor nacional é ou não machista, as opiniões dos CEO´s divergem: as mulheres sentem-se discriminadas, mas não lhes tira o sono; já entre os homens as opiniões não são unânimes - alguns acreditam que estamos no bom caminho, outros defendem que o ecossistema empreendedor nacional está longe de praticar a igualdade de géneros. Luis de Matos, CEO da Follow Inspiration, acredita que os jovens empreendedores nem pensam no assunto porque “somos altamente integradores de todas a gente. Temos uma mente bastante aberta e sabemos o quão bom é ter equipas multifacetadas”. Miguel Pina Martins, CEO da Science4You, é da mesma opinião e defende que vê cada vez mais mulheres a liderar empresas, “No meu entender não (é machista), há cada vez mais empresas jovens com mulheres na liderança”. Já João Ribeiro tem uma resposta perentória sobre se o ecossistema em Portugal é machista: “Completamente”. 

Com um ecossistema, mais ou menos machista, o certo é que o número de mulheres empreendedoras tem vindo a aumentar, mas esta tarefa não é fácil.  Uma mulher líder ainda tem de enfrentar alguns desafios adicionais e aproveitá-los como um estímulo, recomenda Daniela Seixas, “a discriminação é frequente, mas já aprendi a aproveitá-la com bom sentido”. Daniela Braga, CEO da DefinedCrowd, constata que numa área dominada por homens, “em reuniões com clientes e investidores, sobretudo na Ásia, eu sou sempre a única mulher na sala. Em conferências, eu sou sempre a única mulher CEO no palco”(...), “sinto que tenho de dar 3 vezes mais provas do que um homem em situação equivalente”. Para a Marta Gomes, CEO da Strayboots Europe, “liderar uma empresa tem muitos desafios, mas não posso dizer que a discriminação seja um deles. Não me sinto discriminada, talvez discreta e pontualmente, mas honestamente nada que me incomode. (…) Sim, sinto que o ecossistema nacional é machista, mas mais uma vez atribuo esta forma de estar/pensar aos nossos valores culturais. Acredito que podemos utilizar a energia empreendedora atual como uma oportunidade para ajudar a mudar e nos adaptarmos a novos valores”.

Hoje, as mulheres estão integradas em todos os ramos profissionais, mesmo naqueles que, ainda há bem pouco tempo, apenas eram atribuídos aos homens, nomeadamente, no  empreendedorismo e no setor das novas tecnologias . “Ainda há um caminho longo para as mulheres estarem em situação equitativa, quer profissional, quer familiar, quer social, em relação aos homens. São milénios de sociedades patriarcais que estamos a tentar mudar em duas ou três gerações”, afirma Daniela Braga. Para Noelia Novella, CEO da Doinn, “é preciso mudar as mentes, não só a constituição”. Miguel Pina Martins acredita que “é importante desconstruir estereótipos à volta do género, sobretudo no que toca a competências e capacidades". 

Apenas 17% dos oito milhões de trabalhadores de tecnologias da informação e comunicação que existem na União Europeia são do sexo feminino. Portugal mantém-se abaixo da média europeia. Em 2016, as mulheres ocupavam 16,1% destes postos de trabalho. Segundo a CEO da DefinedCrowd, “mesmo nos EUA onde vivo e que na minha opinião é um dos países onde as mulheres têm realmente oportunidade de mudarem o seu destino, o acesso das mesmas a lugares de liderança em grandes empresas, a cargos políticos, a gestão de grandes fundos ou mesmo a presença em carreiras ligadas a STEM (Science, Technology, Engineering and Math) é muito reduzida. Isso mede-se também pelos salários das mulheres que continuam a ser significativamente inferiores em quase todas as áreas”. Marcos Couto, CEO da Asinus, admite que ficou surpreendido com as questões da Portugal Ventures, dividindo a sua opinião pessoal e o que os números mostram. Mesmo assim, acredita que “o trabalho entre pessoas de géneros diferentes é mais produtivo do que quando nos concentramos em grupos de um só género. Hoje temos globalmente uma melhor sociedade graças a essa convivência”.

Em conclusão, será que só o nosso ecossistema empreendedor é machista? “Sim, é machista. Mas este assunto não me tira o sono de noite...” diz Daniela Seixas. Mas não há consenso. Para quem reside e trabalha no estrangeiro a opinião é diferente. Noelia, a trabalhar na Bélgica, acredita que o ecossistema nacional é muito menos machista porque “para ser empreendedor é preciso ter uma mente aberta, a todos os níveis”. Daniela Braga, baralha as conclusões: “Nunca me senti discriminada em Portugal desde que comecei a DefinedCrowd, pelo contrário. Mesmo entre pares. Nos EUA, por acaso, e talvez porque já esteja muito mais inserida no meio, sinto muitas vezes que os investidores não me levam a sério como deveriam ou como fazem com um homem na mesma situação”.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu, faz hoje um ano, que o “poder feminino” se transforme numa prioridade internacional para que seja alcançada a paz e uma maior proteção dos direitos humanos em todo o mundo. “Devemos dar total prioridade ao poder da mulher” pediu Guterres na altura.